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q-Voter em networks

Universidade Federal de Viçosa (UFV)

Junho-julho/2026, Mestrado, TF.

Implementação do modelo em redes com distribuição de graus p(k)p(k) (Poisson, lei de potência, \dots).

Pequena revisão de literatura sobre o q-Voter na literatura

A revisão do Michele sobre dinâmica de opinião foi a principal referência para pesquisar sobre o status do modelo do q-voter na literatura atual:

📄 Opinion dynamics: Statistical physics and beyond
Michele Starnini, Fabian Baumann, Tobias Galla, David Garcia, Gerardo Iñiguez, Márton Karsai, Jan Lorenz, Katarzyna Sznajd-Weron
arXiv preprint arXiv:2507.11521 (2024/2026).


A questão é que o modelo original, tal como proposto por Castellano, não foi extensivamente estudado. Nos artigos que verifiquei, a maioria segue por dois caminhos principais: adotar ε=0\varepsilon=0 ou adotar o modelo com repetição, que vamos chamar, aqui, de variante q-voter.

A variante foi originalmente proposta neste artigo:

📄 Phase transitions in the q-voter model with two types of stochastic driving
Piotr Nyczka, Katarzyna Sznajd-Weron, and J. Cisło
Physical Review E 86, 011105 (2012).

A questão que o diferencia do q-voter original é fazer uma seleção de vizinhos sem repetição, fixando ε=0\varepsilon=0 e adicionando um “ruído social” pp, para modelar conformismo ou anticonformismo do agente com o grupo social. A regra de atualização se torna:

Este modelo também tem uma variação para simular independência do agente em relação à rede:

Este segundo, chamaremos de variante q-voter com independência.

Ao que parece, a bibliografia posterior ao trabalho de Castellano deu preferência a este “segundo” q-voter. A tabela abaixo reúne vários artigos consultados, discriminando-os pelo modelo analisado, tipo de amostragem de vizinhos (com/sem repetição), topologia e métodos de estudo.

ArtigoModeloDescrição (Diferenças vs. Original)AmostragemTopologias AvaliadasMétodo de Simulação / Analítico
Castellano et al. (2009)q-voter originalModelo base (ruído ε\varepsilon apenas se o grupo discordar).Com reposiçãoGrafo Completo, Redes 1D e 2D.Tempo Discreto (assíncrono) / Mean-Field (Fokker-Planck)
Pugliese & Castellano (2009)Voter model clássicoq=1q=1 (ruído ε\varepsilon não se aplica).N/A (q=1q=1)Configuration Model (UCM), Erdős-Rényi.Tempo Discreto / Heterogeneous Pair Approx. (HPA)
Nyczka et al. (2012)variante q-voterO marco da bifurcação: Zera ε\varepsilon original e introduz ruído pp (independência vs. anticonformismo).Sem reposiçãoGrafo Completo.Analítico / Equação Mestra (Landau)
Moretti et al. (2013)q-voter originalMantém o modelo original e estende a teoria para redes.Com reposiçãoRandom Regular (RRN), HMF teórico.Tempo Discreto / Heterogeneous Mean-Field (HMF)
Javarone & Squartini (2015)variante q-voterFixa q=4q=4 e ε=0\varepsilon=0. Agentes fixos (quenched) conformistas e não-conformistas.AleatóriaErdős-Rényi, Barabási-Albert, Watts-Strogatz.Tempo Discreto
Jędrzejewski et al. (2016)variante q-voter com independênciaUsa o parâmetro pp herdado de Nyczka. Testa diferentes formas de formar a vizinhança.Sem reposiçãoRede Quadrada, Watts-Strogatz, Barabási-Albert.Tempo Discreto
Jędrzejewski (2017)variante q-voter com independênciaRuído global de independência pp (annealed).Sem reposiçãoErdős-Rényi, Barabási-Albert, Watts-Strogatz, RRG.Tempo Discreto (assíncrono) / Aproximação de Pares (PA)
Gradowski & Krawiecki (2020)variante q-voter com independênciaRegras condicionais para decisão entre diferentes camadas da rede.Sem reposiçãoRedes Multiplex (RRG, ER, Scale-Free).Tempo Discreto / PA Homogênea, Mean-Field
Jędrzejewski & Sznajd-Weron (2022)variante q-voter com independênciaCompara o ruído “quenched” (agentes fixos) com “annealed” (todos com prob. pp).Sem reposiçãoRandom Regular (RRG), Barabási-Albert (BA).Tempo Discreto / Aproximação de Pares (PA)
Fardela et al. (2025)variante q-voter com independência (Mídia)Fixa ε=0\varepsilon=0. O agente adota o estado +1 com prob. pp se o painel não for unânime.Com reposiçãoBarabási-Albert (BA).Tempo Discreto / Finite-Size Scaling
Lipiecki & Sznajd-Weron (2025)variante q-voterExtensão Multiestado (S>2S>2) focada em anticonformismo (pp). Fixa ε=0\varepsilon=0.Sem reposiçãoRRG, Barabási-Albert, Watts-Strogatz.Tempo Discreto / Aproximação de Pares (PA)
Starnini et al. (2024)ReviewDestaca a distinção matemática e topológica entre as dezenas de variantes.AmbasRevisão geral da literatura.Revisão da Literatura
[Nosso Trabalho]q-voter originalNOVIDADE: Estudo do modelo original em redes Scale-Free com variação de γ\gamma usando método exato.Com reposiçãoScale-Free (variando γ\gamma), Erdős-Rényi.Tempo Contínuo Exato (Gillespie)

Outra coisa importante de destacar é a quantidade de modelos diferentes genericamente chamados pelo mesmo mesmo nome, q-voter ou nonlinear q-voter. Para verificar, de fato, de qual modelo se trata num dado trabalho, é necessário olhar como é definido o modelo utilizado. A revisão do Michele dedica duas seções inteiras (IV.A.2 e IV.B.3) para organizar a vasta família que deriva do original, da qual apresento um resumo na tabela abaixo.

Variante / Nome na LiteraturaArtigo Original (citado na Revisão)Diferenças vs. q-Voter Original (Castellano 2009)
Nonlinear q-voter originalCastellano et al. (2009)O painel de tamanho qq é amostrado com reposição. O ruído ε\varepsilon só atua se o painel não for unânime.
Noisy nonlinear voter / q-voter com independênciaNyczka et al. (2012), Peralta et al. (2018)O ruído de mudança de opinião ocorre com uma taxa constante pp (“independência”), mesmo se o painel concordar. Isso destrói os estados absorventes do modelo original. Geralmente usa amostragem sem reposição.
q-voter com anticonformismoNyczka et al. (2012)Amostragem sem reposição. Se o painel for unânime, o agente tem uma probabilidade pp de adotar a opinião oposta à do painel (anticonformismo). Se não for unânime, nada acontece (ε=0\varepsilon=0).
Nonlinear voter model (com qq real)Vazquez et al. (2010)O parâmetro qq deixa de representar um número inteiro de vizinhos consultados e passa a ser um expoente real contínuo. Para q<1q<1, a dinâmica favorece minorias (coexistência); para q>1q>1, favorece a maioria.
Threshold q-voterNyczka & Sznajd-Weron (2013), Vieira & Anteneodo (2018)Relaxa a regra de unanimidade: o agente é influenciado se apenas um subgrupo q0qq_0 \le q concordar. Gera um diagrama de fases ainda mais complexo.
Asymmetric q-voterDoniec et al. (2025), Mullick & Sen (2025)Quebra a simetria clássica (up/down) introduzindo um viés explícito em direção a uma das opiniões. A probabilidade de saída (exit probability) deixa de ter a forma clássica em “S”.
Multistate q-voterNowak & Sznajd-Weron (2022), Lipiecki & Sznajd-Weron (2025)Estende o modelo para GG opiniões (estados) não-ordenados. Introduz transições de fase descontínuas em versões com ruído estático (quenched disorder).

Ponto de partida

Como nosso modelo é, por assim dizer, negligenciado pela literatura, o ponto de partida são os dois artigos que estudam as propriedades centrais do q-voter em reticulados e aplicam a teoria de campo médio a ele. A implementação em reticulados já foi feita, reproduzindo os resultados centrais.

O ponto de partida aqui, então, é o artigo:

📄 Mean-Field Analysis of the q-Voter Model on Networks
Paolo Moretti, Suyu Liu, Claudio Castellano, and Romualdo Pastor-Satorras
Journal of Statistical Physics 151, 113–130 (2013).

Neste artigo, os autores implementam a teoria de campo médio num grafo completo e com a teoria heterogênea, HMF. Nos dois casos, a teoria prevê duas fases, para (fase de fragmentação da opinião média) e ferromagnética (consenso da opinião média), bem como um região de biestabilidade, que, dependendo da condição inicial, leva ao consenso ou à fragmentação, como mostra a Fig Figure 1.

Transições de fase na teoria de campo médio para o q-voter.

Figure 1:Transições de fase na teoria de campo médio para o q-voter.

A curva que define a fronteira crítica entre a fase paramagnética e ferromagnética é dada por

εc(ϕ)=ϕ2+32ϕ2+14,\overline{\varepsilon_c}(\phi) = \frac{\phi^2+3}{2\phi^2+14}\,,

onde ϕ\phi é a magnetização (opinião) média da rede. Para a teoria HMF, sendo k\langle k\rangle o grau médio da rede, a fronteira é dada por

εc(ϕ)=122k(k2)ϕ2(k2)(k3)+7k2+k2.\overline{\varepsilon_c}(\phi) = \frac{1}{2} - \frac{2\langle k\rangle(\langle k\rangle-2)}{\phi^2(\langle k\rangle-2)(\langle k\rangle-3) + 7\langle k\rangle^2 + \langle k\rangle - 2}\,.

Algumas conclusões centrais deste artigo:

Finalmente, este par de artigos oferece uma ótima referência para a família de funções que podemos testar no modelo definido em redes. Inicialmente, nos interessa o caso q=4q=4, o menor valor de qq em que a biestabilidade é observada na teoria de campo médio. Procuramos fazer um diagrama de fases semelhante ao da Figura Figure 1, onde, para um dado valor ε\varepsilon, examinamos a dinâmica varrendo as condições iniciais da magnetização, ϕ0[0,1]\phi_0\in[0,1].

Assim, para caracterizar as fases deste sistema, podemos analisar as seguintes grandezas assintóticas (definidas para tt\to\infty):

Um estado paramagnético é caracterizado por E[ϕ=±1]=0E\big[\phi_\infty=\pm1\big]=0 (fragmentação), e um estado ferromagnético, por E[ϕ=±1]=sgn(ϕ0)E\big[\phi_\infty=\pm1\big]=\text{sgn}(\phi_0) (consenso).

Detalhes sobre a implementação em tempo contínuo

Para utilizar o algoritmo de Gillespie, o método de aceitação-rejeição (eventos reais e nulos) com lista dinâmica é a forma otimizada. A referência principal para implementação do algoritmo foi:

📄 Dynamic sampling from a discrete probability distribution with a known distribution of rates
Federico D’Ambrosio, Hans L. Bodlaender, and Gerard T. Barkema
Computational Statistics 37, 1203–1228 (2022).

A ideia é considerar apenas os nós que podem flipar. Basta definir uma lista que contém todos os NativosN_{\text{ativos}} nós ativos da rede (isto é, aqueles com fk>0f_k>0) e atualizá-la dinamicamente durante a evolução. Em suma:

No pior dos casos, a lista dinâmica tem complexidade temporal igual ao método ingênuo de aceitação-rejeição (onde o sorteio do nó ii é feito sobre toda a rede). Mas em dinâmicas próximas ao estado de consenso, o tamanho da lista decresce rapidamente, de forma que o uso da lista dinâmica reduz a complexidade temporal. Outros métodos de otimização, a princípio, não geram melhorias no tempo computacional.

Equivalência entre o algoritmo de Gillespie otimizado com a lista dinâmica e o algoritmo em passos discretos de Markov.

Figure 2:Equivalência entre o algoritmo de Gillespie otimizado com a lista dinâmica e o algoritmo em passos discretos de Markov.

A Figura Figure 2 mostra a equivalência (estatística) das implementações em tempo discreto e tempo contínuo com lista dinâmica. As Figuras abaixo mostram o ganho computacional com o método em tempo contínuo.

Escalonamento de tempo computacional entre os algoritmos OG e com passo discreto com o tamanho da rede.Escalonamento de tempo computacional entre os algoritmos OG e com passo discreto com o parâmetro \varepsilon.

Também é fundamental esclarecer que a condição de parada da simulação é dada por um tempo máximo numericamente igual ao tamanho da rede Gillespie_time = t_max=\real(N) ou à obtenção do consenso, N_ativos = 0. Isto é feito para diferenciar claramente as fases de fragmentação e consenso.

Resultados

References
  1. Nyczka, P., Sznajd-Weron, K., & Cisło, J. (2012). Phase transitions in the<mml:math xmlns:mml=“http://www.w3.org/1998/Math/MathML” display=“inline”><mml:mi>q</mml:mi></mml:math>-voter model with two types of stochastic driving. Physical Review E, 86(1). 10.1103/physreve.86.011105
  2. Castellano, C., Muñoz, M. A., & Pastor-Satorras, R. (2009). Nonlinear<mml:math xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" display="inline"><mml:mi>q</mml:mi></mml:math>-voter model. Physical Review E, 80(4). 10.1103/physreve.80.041129
  3. Pugliese, E., & Castellano, C. (2009). Heterogeneous pair approximation for voter models on networks. EPL (Europhysics Letters), 88(5), 58004. 10.1209/0295-5075/88/58004
  4. Moretti, P., Liu, S., Castellano, C., & Pastor-Satorras, R. (2013). Mean-Field Analysis of the q-Voter Model on Networks. Journal of Statistical Physics, 151(1–2), 113–130. 10.1007/s10955-013-0704-1
  5. Alberto Javarone, M., & Squartini, T. (2015). Conformism-driven phases of opinion formation on heterogeneous networks: theq-voter model case. Journal of Statistical Mechanics: Theory and Experiment, 2015(10), P10002. 10.1088/1742-5468/2015/10/p10002
  6. Jȩdrzejewski, A., Sznajd-Weron, K., & Szwabiński, J. (2016). Mapping the <mml:math xmlns:mml=“http://www.w3.org/1998/Math/MathML” altimg=“si44.gif” display=“inline” overflow=“scroll”><mml:mi>q</mml:mi></mml:math>-voter model: From a single chain to complex networks. Physica A: Statistical Mechanics and Its Applications, 446, 110–119. 10.1016/j.physa.2015.11.005
  7. Jędrzejewski, A. (2017). Pair approximation for the<mml:math xmlns:mml=“http://www.w3.org/1998/Math/MathML”><mml:mi>q</mml:mi></mml:math>-voter model with independence on complex networks. Physical Review E, 95(1). 10.1103/physreve.95.012307
  8. Gradowski, T., & Krawiecki, A. (2020). Pair approximation for the <mml:math xmlns:mml=“http://www.w3.org/1998/Math/MathML”><mml:mi>q</mml:mi></mml:math> -voter model with independence on multiplex networks. Physical Review E, 102(2). 10.1103/physreve.102.022314
  9. Jędrzejewski, A., & Sznajd-Weron, K. (2022). Pair approximation for the  <mml:math xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML"><mml:mi>q</mml:mi></mml:math> -voter models with quenched disorder on networks. Physical Review E, 105(6). 10.1103/physreve.105.064306
  10. Fardela, R., Abdullah, Z., & Muslim, R. (2024). Opinion evolution under mass media influence on the Barabasi–Albert network based on the q-voter model. International Journal of Modern Physics C, 36(04). 10.1142/s0129183124502115